Rubrica : Mundo
População haitiana está "à beira do desespero", diz ONG Viva Rio
11/03/2010, José Campinho com agências
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A população haitiana está "à beira do desespero", disse à Lusa o antropólogo fundador da organização não governamental brasileira Viva Rio que atua no Haiti.



A população haitiana está "à beira do desespero", disse à Lusa o antropólogo fundador da organização não governamental brasileira Viva Rio que atua no Haiti. Sem emprego, milhares de pessoas que não têm para onde ir permanecem nas ruas e a situação ainda é dramática. "Uma população enorme continua a viver nas ruas, as pessoas que não perderam tudo têm medo de voltar para as suas casas", descreveu Rubem Cesar Fernandes, recém-chegado de Port-au-Prince ao Brasil.

Num país arrasado com o sismo no dia 12 de janeiro, o número de feridos supera a marca dos 300 mil e ainda há mais de um milhão de haitianos desalojados. "Estamos a viver ainda as consequências imediatas do terramoto. A população haitiana está à beira do desespero, com necessidade de protecção e abrigo. Isso gera uma lama de miséria e faz com que haja riscos de epidemias", analisa o antropólogo.

O primeiro impacto após o sismo teve uma resposta bastante rápida nas ações internacionais de ajuda. Agora há iniciativas de melhorar as condições dos acampamentos, latrinas, suprimentos de água e alimentos. Rubem Fernandes alerta para a preocupação do período de chuvas que já chegou e os campos não estão preparados para as fortes tempestades que atingem as Caraíbas nesta época do ano. Mais do que ajuda, assinala, "é preciso trabalho para reforçar a dignidade humana e garantir recursos para movimentar a economia". Há muito entulho das construções que ruíram e lixo acumulado nas ruas da capital haitiana, descreve Rubem Fernandes.

O Viva Rio está a iniciar um programa de criação de rendimentos e trabalho para cerca de mil pessoas, principalmente na parte de limpeza da cidade e retirada do lixo. Esta é a forma mais fácil de se empregar mão de obra numa população com pouca qualificação, explica.

No que se refere à segurança, o antropólogo afirma que algumas áreas ainda estão expostas à violência. O próprio centro da ONG no bairro de Bel Air, que está a abrigar cerca de 2000 pessoas, localiza-se próximo de uma área ocupada por bandidos armados que fugiram da prisão após esta ter ido abaixo.

"Há espaços que não estão controlados. Vai levar ainda algum tempo para voltar à situação que se tinha antes do terramoto", ressalta Rubem.

Contudo, desta vez, a população está a resistir ao regresso dos conflitos.

A discussão agora é para traçar perspectivas de reconstrução do país a longo prazo com estratégias de descentralização dos investimentos que antes eram concentrados na capital.

O desafio, segundo o antropólogo, é direccionar investimentos para o meio rural, pequenas e médias cidades que cresceram com a fuga em massa de quase 600 mil pessoas que viviam na capital e se deslocaram para o interior.

Na próxima semana, o antropólogo volta ao país para mais 10 dias de trabalho intenso na coordenação das ações do Viva Rio.

Há pelo menos quatro anos, a entidade promove no Haiti projetos integrados de segurança e desenvolvimento para a redução da violência e de desmobilização de grupos armados em Port-au-Prince.

Com 10 brasileiros e 400 haitianos voluntários, a ONG atua no atendimento de emergência à população dois meses após o sismo que abalou o país.

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